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Criança e luto

 

Criança e luto: vivências fantasmáticas diante da morte do genitor 
 
Maria Helena Pereira Franco Luciana Mazorra Este estudo clínico qualitativo objetivou investigar fantasias da criança enlutada pela morte de um ou ambos os pais e sua relação com o processo de elaboração do luto. Foram realizados estudos de caso com meninos e meninas, de três a oito anos de idade, enlutados em decorrência da morte de um ou ambos os genitores, indicados para atendimento psicoterápico em uma clínica-escola. Como instrumentos de investigação, foram utilizadas entrevistas com o genitor sobrevivente ou responsável pela criança, uma entrevista familiar, três entrevistas lúdicas e a aplicação do procedimento de desenhos-estórias com a criança. Apreenderam-se fantasias de aniquilamento, culpa, castração, onipotência, rejeição, identificação, retaliação, idealização e desidealização do objeto perdido; agressividade; negação da perda; regressão; reparação; repetição da situação da perda. Foram apontados sentimentos, comportamentos e sintomas por meio dos quais as fantasias foram expressas. A construção das fantasias mostrou-se relacionada ao desenvolvimento psicossexual e cognitivo e ao modo de funcionamento egóico da criança, condições circundantes ao evento da morte e dinâmica familiar. Entre esses fatores, apontaram-se os facilitadores e os dificultadores da elaboração do luto. Percebeu-se que as fantasias refletem o processo do luto e seu conhecimento possibilita a compreensão de seus sentimentos, comportamentos e sintomas e que estão associadas a processos elaborativos do luto. 
 
A morte de um genitor é uma das experiências mais impactantes que a criança pode vivenciar. Com os pais, morre também a ilusão narcísica da onipotência infantil em um momento em que ela é necessária como fonte de segurança. Diante da ausência irreversível de um vínculo provedor de sustentação, a criança se depara com profundos sentimentos de desamparo e impotência. 
 
Com a morte de um genitor, a criança perde o mundo que conhecia, aquele em que o genitor podia afastar-se e ao qual retornava. Agora seu mundo está enlutado: torna-se difícil lidar com toda a gama de sentimentos que parecem invadi-la com o desmoronamento da família. O luto é o processo de reconstrução, de reorganização, diante da morte, desafio emocional e cognitivo com o qual ela tem de lidar. 
 
O atendimento de crianças enlutadas pela morte de um ou ambos os pais suscitou-nos o interesse de estudar as fantasias que permeiam seu imaginário, ou seja, como tal situação se inscreve no mundo fantasmático dessa criança, refletindo seu processo de luto. A importância de estudar as fantasias de crianças que perderam um ou ambos os pais diz respeito à concepção psicanalítica de que o sintoma, presente no processo de enlutamento, é a expressão simbólica de construções fantasmáticas (Freud & Breuer, 1893 – 1895 [1996]). Além disso, a fantasia é a representação de desejos, disfarçados em maior ou menor grau por processos defensivos; é a satisfação de um desejo insatisfeito, a correção de uma realidade não satisfatória. 
 
Portanto por meio das fantasias seria possível apreender a dinâmica do luto, tendo-se em conta os sentimentos, reações e sintomas envolvidos e o modo como a criança processa a realidade concreta da perda de um ou ambos os pais. 
 
A literatura encontrada sobre o processo de luto da criança em sua grande parte é estrangeira (Beckman, 1990; Guérin, 1979; Sekaer, 1987; Worden, 1996) e descreve as reações e sintomas que podem ser apresentados pela criança de faixas etárias diversas que vivencia diferentes tipos de perda. No entanto pouco é encontrado a respeito dos mecanismos intrapsíquicos envolvidos na elaboração do luto da criança. 
 
Fantasia Na Psicanálise, de acordo com Laplanche e Pontalis (2000), fantasia3 refere-se ao mundo imaginário, a seus conteúdos e à atividade criadora que o anima. Já o termo francês fantasme, colocado em uso pela psicanálise francesa, designa determinada formação imaginária, mas não a atividade imaginativa em geral. 
 
Os autores definem essa formação imaginária como um roteiro imaginário do qual o sujeito faz parte, que representa a realização de um desejo de modo mais ou menos deformado pelos processos defensivos. Em sua revisão sobre o conceito de fantasia dentro da obra freudiana, apontam que no que se refere à situação tópica, Freud não realiza uma distinção de natureza entre fantasia inconsciente e fantasia consciente, mas, diversamente, busca as ligações existentes entre ambas. No presente trabalho, compreendemos as fantasias como as formações imaginárias do sujeito que representam a realização de desejos. Não pretendemos distinguir fantasias conscientes e inconscientes, tendo em vista a estreita ligação existente entre ambas. 
 
Compreendemos também a fantasia como um fenômeno construído de acordo com a realidade psíquica do sujeito que a constrói, numa interação constante com o mundo externo e interno. 
 
Dessa forma, pensamos que a experiência concreta de morte de um ou ambos os pais está relacionada à constituição das fantasias da criança. 
 
Luto na infância 
 
Freud, em Luto e Melancolia (1917 [1915] [1996]), descreve o luto como um trabalho que o ego tem de realizar para adaptar-se à perda do objeto amado, perante a percepção propiciada pelo teste de realidade de que esse foi perdido. A elaboração do luto foi descrita na teoria psicanalítica como um processo de identificação com o objeto perdido, no qual há retirada gradual do investimento libidinal nesse objeto e investimento libidinal em novos objetos. Esse processo não implica o desligamento total do objeto perdido, tendo em vista que a ligação com o objeto interno permanece e é ressignificada durante o trabalho de luto. É esse trabalho de ressignificação, de transformação da relação com o objeto perdido, que permite a elaboração do luto. 
 
Como bem apontam Laplanche e Pontalis (2000), o conceito de trabalho de luto é bastante inovador na compreensão do enlutamento. Anteriormente visto, especialmente pelo senso comum, como uma atenuação espontânea e progressiva da dor desencadeada pela perda de um ente querido, é descrito por Freud como um processo elaborativo que depende da atividade do sujeito e pode ser ou não bem-sucedido. É uma forma de elaboração psíquica que consiste na ligação no aparelho psíquico de impressões traumatizantes, integração de excitações e estabelecimento de conexões associativas entre elas. 
 
Bowlby (1960,1993) define pesar como a aflição experimentada pela pessoa que perde um ente significativo e a seqüência de estados subjetivos que acompanham o enlutamento. O luto é considerado o trabalho psíquico de elaboração dessa perda. 
 
Enquanto a criança não pode reconhecer seus objetos de amor como sendo separados dela, na eventualidade da perda ou separação da mãe, ela sente que perdeu uma parte de si própria, mas não pode sentir pesar e enlutar-se pelo objeto amado. Tendo em conta as contribuições de Klein (1970,1996a, 1996b), Bowlby (1960,1993) e Winnicott (2000), autores de diferentes escolas psicanalíticas que estudaram o tema do luto na infância, podemos pensar que entre quatro e sete meses de idade, aproximadamente, a criança sente pesar e fica enlutada na ocasião de uma perda ou separação de uma figura significativa. Embora sua capacidade simbólica seja limitada, haveria já o desenvolvimento primitivo de processos psíquicos de elaboração. 
 
Para Bowlby (1993), a partir de dezesseis meses de idade, aproximadamente, a criança teria mais recursos cognitivos e emocionais para elaborar o luto como o adulto. Consideramos arriscado, no entanto, comparar esse incremento de recursos emocionais da criança dessa idade com a capacidade elaborativa do adulto, uma vez que o psiquismo da criança está em formação. 
 
Do ponto de vista dos recursos cognitivos da criança, Torres (1999), tendo em vista os estudos de Piaget, aponta que a criança somente compreende a irreversibilidade da morte quando atinge o modo de pensamento Operatório Concreto, por volta dos sete anos de idade. A maior dificuldade de compreender a irreversibilidade da morte pode dificultar o processo de elaboração da perda. Segundo Scalozub (1998), toda criança tem dificuldade de elaborar a perda de um objeto amado, principalmente aquele do qual depende, pois seu psiquismo ainda está em desenvolvimento, e ela necessita das pessoas que garantem sua sobrevivência física e desenvolvimento emocional. Em função de sua maior dificuldade cognitiva e emocional para significar a perda, a elaboração do luto vivido pela criança é processada ao longo da estruturação psíquica, em distintos momentos de sua vida, à medida que ela vai podendo significar o que viveu. O luto pode ser reativado, também, ao longo da vida, ao encontrar ressonância com conflitos do futuro desenvolvimento. Isso não compreenderia patologia, um luto adiado, mas sim sua elaboração, já que nenhum trauma na infância pode ser resolvido até que a criança cresça (Sekaer, 1987; Scalozub, 1998; Worden, 1998). 
 
Portanto as crianças elaboram o luto; porém têm um modelo próprio de elaboração, sendo equivocado impor-lhes o modelo adulto. Seu luto não é uma versão deficiente do luto do adulto. Tem características específicas, haja vista que a criança está em processo de estruturação de sua personalidade (Sekaer, 1987; Worden, 1998). 
 
O modo como a criança é capaz de elaborar a perda de um ente querido relaciona-se a fatores intrapsíquicos (elaboração da posição depressiva arcaica e recursos para elaborar perdas) e fatores externos (relação com a pessoa perdida; relação com o pai sobrevivente; circunstâncias em que a perda ocorreu; informação recebida pela criança; possibilidade de comunicação sobre o que aconteceu e sobre a pessoa perdida; dinâmica familiar; tipo de morte; rituais; estressores e mudanças no cotidiano da criança) e está em estreita relação com a possibilidade de elaboração do genitor sobrevivente e do restante da família (Aberastury, 1973; Bowlby, 1993; Domingos & Maluf, 2003; Guérin, 1979; Klein, 1996a; Kraus & Monroe, 2005; Nickman & Normand, 1998; Winnicott, 1994; Worden, 1996). A presente pesquisa teve por objetivo investigar o universo de fantasias da criança enlutada pela morte de um ou ambos os pais, para averiguar como tal perda atua sobre o mundo fantasmático da criança, e de que modo suas fantasias se relacionam com seu processo de elaboração do luto. 

 


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