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A única certeza

 

por Antonio Luiz Monteiro Coelho da Costa 
 
Apesar de toda a violência, o século XX fugiu da idéia da morte e fez o possível para esquecer que ela existe. Conseguirá o século XXI ser mais sábio? 
 
Em duas bem conhecidas obras dos anos 70, O Homem Diante da Morte e A História da Morte no Ocidente, o historiador francês Philippe Ariès – que, embora fosse amigo de Michel Foucault, era tradicionalista, conservador e monarquista – estudou a mudança das atitudes de nossa civilização ante esse problema e concluiu por uma severa condenação da modernidade. A seu ver, a ansiedade com a morte começa a surgir na literatura e nos epitáfios do século XVII. O medo e a recusa a representá-la teriam surgido no século XIX e chegaram a extremos nas sociedades mais avançadas do século XX.
Segundo Ariès, os medievais domesticaram a morte, tornando-a familiar, próxima e amena. Sua chegada era abertamente esperada e preparada, no seio da família, com calma, serenidade e cooperação do próprio moribundo. Na modernidade, pelo contrário, a morte teria se tornado selvagem: um fato a ser negado e evitado enquanto possível, confinado e escondido quando não mais o for, resultando em mortes solitárias e aflitivas. Para uma sociedade secularizada e individualista, confiante na capacidade de cada indivíduo controlar o seu destino e buscar a sua felicidade – a ponto de torná-la menos direito que obrigação –, a morte e o luto, mais que o sexo, teriam se tornado uma vergonha, uma obscenidade. 
Ariès e seu método mereceram muitas críticas: ele escolheu suas evidências, deixando de lado outras que contrariariam suas teses preconcebidas, como o registro do terror incontrolável que a morte inspirava durante as epidemias de peste. Com freqüência, tomou prescrições por fatos e referiu-se a obras literárias e manuais do “bem morrer” como se refletissem a realidade cotidiana e não os ideais estéticos e religiosos do autor e de seu público. Esqueceu-se convenientemente de relatos medievais autênticos sobre herdeiros a escarnecer do moribundo em seu leito.
Em A Solidão dos Moribundos, o historiador alemão Norbert Elias, de inclinação liberal e progressista, apontou todos esses problemas sem deixar de reconhecer que, de fato, a morte era tema mais aberto e freqüente nas conversas da Idade Média que hoje e um processo no qual havia mais envolvimento dos outros. Mas a seu ver, antes de condenar o presente, é preciso entender como o processo civilizador causou essa mudança. 
Para começar, antes a morte era mais comum, pois as doenças e os perigos eram menos controláveis, e mais pública, porque as moradias apinhadas não deixavam escolha. A morte não podia deixar de ser menos privatizada e as pessoas de falar dela – como de outros aspectos fisiológicos da vida, da digestão ao sexo – com uma franqueza que hoje seria entendida como cruel, de mau gosto, ou mórbida. Um erudito como Erasmo de Rotterdam podia discorrer sobre a maneira adequada de abordar uma prostituta ou de assoar o nariz, assim como um poeta podia recordar à amada demasiado recatada que um dia seu corpo seria pó, para encorajá-la a aproveitar os prazeres da vida enquanto era bela e saudável. 
Por outro lado, no mundo moderno, mortos e moribundos de fato são, como nunca antes, assepticamente afastados para os bastidores da vida social. Intimamente ligado a isso há um desconforto sem precedentes dos vivos na presença dos moribundos. Muitas vezes, sem saber o que dizer, dão aos que vão morrer a sensação amarga de já terem sido abandonados.
Isso, insistiu Elias, é apenas um aspecto de um problema geral da civilização em seu estágio presente – mais intensamente, depois da Primeira Guerra Mundial. O problema manifesta-se também em outras ocasiões que demandam a expressão de participação emocional sem perda do autocontrole, como o amor. 
Outrora, clichês e convenções eram mais facilmente usados para expressar sentimentos autênticos. Valores e significados inconscientemente aceitos e amplamente compartilhados permitiam identificar os matizes e distinguir os usos sinceros dos insinceros. Depois, viveu-se um processo de informalização ante o qual fórmulas rituais soam gastas, embaraçosas e suspeitas: trazem a aura de crenças abandonadas e sistemas de dominação rejeitados. 
Ao mesmo tempo, o processo de civilização, para Elias, implica racionalização, autocontrole e maior sensibilidade à repugnância e à vergonha – e, assim, produz indisposição ou incapacidade de exprimir emoções fortes, em público ou em privado. A maneira como as pessoas convivem exige um alto grau de reserva na expressão de afetos fortes ou espontâneos.
Na falta de rituais para refletir o padrão corrente das crenças, sentimentos e comportamentos, as novas gerações foram entregues à sua criatividade individual para encontrar a palavra e o gesto certos, tarefa fora do alcance de muitos. Os próprios médicos, que se acostumaram a ver seu trabalho como luta contra a morte, não sabem o que dizer aos pacientes que não têm esperanças de curar e cuja presença atesta suas limitações, se não seu fracasso.
Os próximos dos moribundos não conseguem confortá-los com os gestos de afeição que poderiam lhes proporcionar alguma sensação de proteção e pertencimento. Ao mal-estar da doença e ao medo da morte somam-se a perda de sentido, a sensação de ter-se tornado um mero incômodo, um peso inútil, um resíduo orgânico que custa a desaparecer. Quer se acredite em vida após a morte quer não, importa a todos que a vida tenha significado até o fim, e mesmo depois. Ou seja, que as pessoas continuem a ser tratadas como tais mesmo quando se tornam improdutivas e sem possibilidade de cura e que mesmo depois da morte seus desejos sejam respeitados na medida do razoável. 
Mas a fala espontânea com os enlutados e os moribundos, da qual estes têm especial necessidade, tornou-se difícil. As rotinas hospitalares, destituídas de sentimentos, contribuem para seu isolamento, assim como a impessoalidade dos especialistas remunerados que cuidam dos cadáveres e da sepultura isola os sobreviventes.
Sem dispor de lugar apropriado nos usos e costumes, a morte, tornada de mau gosto, foi cercada por uma solenidade excessiva e sufocante. Os vivos como que varrem esse aspecto embaraçoso da animalidade humana para baixo das cenas da vida normal. Em torno dos moribundos e mortos só há silêncio e vozes abafadas, meios de manter a distância a sensação de ameaça a eles associada. Oculta-se a finitude da existência humana, especialmente das crianças, por idéias acalentadoras, mas pouco convictas (“Seu avô está no céu agora”). 
Ainda mais estranho é o comportamento de adultos que tentam ocultar sua finitude de si mesmos, comprometendo seus recursos e os de suas famílias com o congelamento de seus corpos – ou pelo menos de suas cabeças ou cérebros – com a esperança de que cientistas do futuro não só sejam capazes de reconstruí-los e ressuscitá-los, como também que os julguem dignos desse esforço. A moda foi iniciada pela Cryonics Society of Michigan (atual Immortalist Society) e pela Bay Area Cryonics Society (atual American Cryonics Society) em fins dos anos 60. 
Os preços variam de 28 mil dólares para o procedimento básico a 155 mil dólares para o mais completo, incluindo vitrificação do corpo. Mais de mil pessoas já fizeram preparativos para isso e outras 150 já estão congeladas com essa esperança, mas sem nenhuma garantia. Todas, previsivelmente, nos EUA e metade delas na Alcor Life Extension Foundation, em Scottsdale, no Arizona – o equivalente moderno do Vale dos Reis do Antigo Egito. São os equivalentes modernos dos faraós que buscaram a vida eterna com a ajuda de seus mumificadores, mas conseguiram, na melhor das hipóteses, um lugar de honra nas exposições de museus arqueológicos. Ariès, nostálgico de um passado ideal, repudia incondicionalmente as tendências de negação da morte, Elias as entende como efeito colateral de uma modernidade em geral desejável, mas ambos reconhecem que o problema existe. Também há, por outro lado, tentativas de enfrentá-lo, nos campos da medicina e da psicologia.
Uma pioneira fundamental foi a enfermeira e médica britânica Cicely Saunders. Atuante na medicina social desde os anos 40, fundou, em 1967, o St. Christopher’s Hospice, primeiro no gênero – uma unidade de cuidados paliativos especializada em doentes incuráveis, procurando unir as possibilidades de alívio da dor e de sintomas desagradáveis proporcionadas pela medicina moderna com um cuidado integral do paciente como pessoa, dando atenção às suas necessidades sociais, psicológicas e espirituais. A doutora e dame (equivalente feminino de sir) Cicely faleceu em julho de 2005, no próprio hospice que criou.
Igualmente importante foi o psiquiatra britânico Colin Murray Parkes, inspirado no trabalho do psicanalista John Bowlby, discípulo da também psicanalista Melanie Klein, com a qual atendeu crianças traumatizadas, órfãs ou separadas dos pais pela Segunda Guerra Mundial. Parkes dedicou-se ao problema do luto desde os anos 50 e dirigiu o serviço de atendimento aos enlutados no St. Christopher’s Hospice desde a sua fundação. Em Luto: Estudos sobre a perda na vida adulta, ele analisa a vulnerabilidade das pessoas – principalmente viúvas – ao pesar e aos riscos de medicalizar as crises normais da vida e tratar o luto como doença. Essa revalorização do cuidado paliativo e da qualidade de vida do doente incurável difundiu-se nos EUA a partir de 1974 e, em seguida, pela Europa, Japão, Canadá e Austrália. Hoje, há mais de 4.100 unidades nos EUA e 470 no Reino Unido. No Brasil, a Sociedade Brasileira de Clínica Médica lista 21 clínicas especializadas, a mais antiga das quais é o serviço de Dor e Medicina Paliativa do Hospital das Clínicas de Porto Alegre, de 1983. 
A pesquisa sobre o tema e o treinamento para essa missão têm lugar próprio na academia. Na Universidade de São Paulo, o Instituto de Psicologia conta com um Laboratório de Estudos sobre a Morte (LEM), coordenado pela psicóloga Maria Julia Kovács, que em 1986 criou a disciplina “Psicologia da Morte” nessa faculdade. É organizadora e co-autora do livro-texto Morte e Desenvolvimento Humano, bem como de outras obras sobre o tema. 
O LEM propõe uma abertura para discutir o tema da morte sem abordagens fixas e oferece vídeos educativos para facilitar a comunicação sobre o tema com leigos e profissionais, consultorias e cursos de instituições de saúde e educação, cursos de graduação e pós-graduação em psicologia da morte e cursos de extensão a profissionais da saúde e educação.
Maria Julia tem muitas reservas à maneira como os meios de comunicação tratam a morte, ao expor, por exemplo, o sofrimento e a revolta de enlutados por acidentes e pela violência. Também a jornalistas que a consultam sobre, por exemplo, a duração “normal” do luto. 
Pôde-se ver um exemplo do primeiro problema quando do acidente com o vôo 1907 da Gol. A Rede Globo custou a informar sobre o desaparecimento do avião – para não desviar a atenção das imagens do “dinheiro do dossiê”, conforme reportagem “Os fatos ocultos” (CartaCapital 415), – e a cobrir o assunto com objetividade, mas não hesitou em pôr no ar constrangedoras cenas de aflição e desespero de famílias que acorriam aos aeroportos em busca das notícias que a mídia lhes negava.
Na segunda questão, parece haver a preocupação de encontrar ou ditar regras sobre o quanto, exatamente, as pessoas têm o direito de perturbar a rotina alheia. De se apresentarem tristes e desanimadas e de contrariar as receitas dogmáticas de bem viver, otimismo, competitividade e proatividade pregadas pelos lemas empresariais, pela ideologia da auto-ajuda e pelas receitas de revistas semanais afeitas a uma ilusória juventude permanente, estendida à força de Botox e Viagra. Quanto as pessoas têm o direito de reduzir o lucro de seus empregadores e o PIB do país com sua tristeza?
Percebe-se, ao mesmo tempo, uma contracorrente de fascínio pela morte. Nas sociedades modernas, competitivas e centradas no ideal do sucesso – afastadas da presença da morte, embora o cotidiano revele o contrário –, os adolescentes podem não se sentir seguros para integrar a vida adulta. 
Certos adolescentes parecem, às cegas ou não, fazer aproximações da morte como em um rito de iniciação na vida adulta que, lembra a psicanalista Taeco Toma Carignato, não significa apenas inclusão na sociedade de consumo, mas também o momento em que se pára de crescer e inicia o longo caminho que vai terminar em morte. Essa aproximação pode ser literal – como na adesão a esportes radicais, drogas pesadas e gangues criminosas. Ou pode ser mais simbólica e ritualizada na adesão à subcultura “gótica” e ao seu pendor por rostos pálidos, noitadas em cemitérios e roupas negras que recordam o luto recalcado pela modernidade.
Ao mesmo tempo, a sociedade pouco a pouco reconhece a necessidade de uma aproximação mais madura da questão. Ao surgimento de centros de cuidados paliativos soma-se o debate sobre a ortotanásia, ou seja, a suspensão ou limitação de medidas para prolongar a vida do paciente de doenças graves, terminais e incuráveis, respeitada a vontade do paciente (ou de seu representante legal) e garantidos os cuidados necessários para aliviar o sofrimento – em oposição à eutanásia, o procedimento muito mais polêmico de precipitar o fim da vida por ato médico.
Em novembro, o Conselho Federal de Medicina autorizou esse procedimento, respaldado por muitas religiões, inclusive a católica, e muitas vezes aplicado na prática médica. A medida foi contestada por procuradores do Ministério Público, mas significa simplesmente o reconhecimento de que a morte é inevitável e que pensá-la e prepará-la de maneira humana e digna é uma necessidade e um ato de cuidado médico, não abandono ou omissão de socorro. É um passo para que o século XXI possa de novo falar do fato bruto da morte e integrá-lo em ritos, símbolos e procedimentos de acordo com as crenças e valores atuais – aqueles dos quais Ariès, Elias e os mortos do século XX sentiram tanta falta.

 


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