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Preparo da vida e da morte

 

“A morte é considerada algo que deve ser combatido a todo custo”, diz a professora de psicologia da morte Maria Júlia Kovacs, do Instituto de Psicologia da USP, sobre o pensamento ocidental que assemelha a morte ao fracasso. 
 
E essa negação da morte só tem ganhado força. Nos últimos anos, houve um processo pelo qual a morte, que já era um tabu, passou a ser ainda mais escondida. “Dentro do processo de afastamento, ao colocar a morte (o velório) para fora de casa, criamos recursos para fingir que ela não existe”. 
 
A própria maneira com que o termo morte é empregado cotidianamente faz acreditar que a dificuldade de adaptação ao assunto foi superada. 
 
“Na verdade, a palavra foi ressemantizada, negada e mascarada. Usamos o termo morte para intensificar os sentimentos (morrendo de fome, morrendo de saudade), mas não para definir o que ela realmente representa. Então dizemos “ele descansou”, “foi para o céu”, “não está mais conosco”. 
 
Afastar a possibilidade da perda é uma forma de proteção encontrada pelo homem para não fazer contato com o sofrimento. “Somos mal preparados para perder. Ilude-se quem pensa que dá conta de tudo”, diz Gláucia Rezende Tavares, psicóloga e fundadora do API (Apoio a Perdas Irreparáveis). 
 
Maria Helena Pereira Franco, também defende o entendimento e a assimilação de pequenas “mortes” vividas diariamente por todos como uma forma de preparação. Um projeto que não deu certo, o emprego perdido, o casamento que acabou ou a reprovação no vestibular são exemplos de mortes simbólicas. “Trabalhar com essa experiência negativa, que causa dor, traz crescimento e é uma maneira de entender o cotidiano, de tocar a vida e avaliar o que é e como enfrentar a morte”. 
 
As crenças religiosas ou filosóficas de vida podem ajudar e muito na preparação e no enfrentamento mais tranqüilo de uma perda e o significado da morte para algumas religiões. 
 
O melhor preparo para a morte é viver bem na vida. É como calibrar o farol do carro. Curto para não cair nos buracos e longo para ver as curvas. Lide com a vida no dia-a-dia, mas saiba que existe essa projeção (a morte) para o futuro”, diz Gláucia. 
 
Um outro lema bom para se guiar na vida é de Guimarães Rosa, expresso em “Grande Sertão”: O importante não é chegar nem partir, é a travessia. 
 
Formas de viver o luto 
 
Depois do choque provocado pela morte de alguém querido, a reação mais comum é a negação, momento em que a perda parece não passar de um pesadelo, de uma brincadeira de mau gosto. 
 
A tristeza – é o sentimento seguinte, e, para vencê-la, não há regras nem tempo definido. 
 
“Recordar é aproximar o coração. É para quem sabe sentir”. 
 
O luto é um processo em que a perda leva tempo para ser elaborada, e cabe a cada um procurar aquilo que lhe faz sentir melhor. 
 
“Quando se perde alguém importante, sentimentos fortes vêm à tona, e é importante deixar aflorar o que vier. Chorar, se tiver vontade, conversar ou simplesmente ficar quieta”, diz a psicóloga Maria Júlia Kovacs. 
 
Embora a fase inicial; do luto seja considerada uma das mais difíceis, é importante não queimar nenhuma das etapas. 
 
“É normal buscar a pessoa e sentir saudade, até que um dia aceita-se que ela não volta mais”, diz Maria Helena Pereira Franco, do Lelu. 
 
Mas a dor da perda pode se tornar patológica quando a realidade passa a não ser aceita, e o enlutado deixa de lado sua própria vida para viver de lembranças. A perda de prazer, da criatividade, do apetite, o aparecimento de doenças e a dificuldade em retomar a vida são os principais indicativos. 
 
A maneira mais saudável de encarar a perda, de acordo com a psiquiatra Eva Zoppe, e saber que a morte levou apenas o físico da pessoa “a representação de quem se foi existe dentro do psiquismo de cada um, e isso nunca poderá ser tirado”. 
 

 

 


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