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Falando de perdas, luto e morte

 

Quem espera que alguém morra? Acho que a morte não está nos planos da maioria das pessoas. Mas o fato é que ela existe e, mesmo não falando na morte, ela acontece. E, como quase ninguém gosta de falar no assunto, muitas vezes a gente se sente só quando, por algum motivo, perdemos alguém que amamos, sentimos saudade ou mesmo quando tememos a nossa própria morte. 
 
Ao se contrapor à vida, a morte nos ensina a buscar uma vida melhor, porque ela nos diz que nosso tempo é limitado e, por isso, valioso. Ela oferece uma oportunidade para avaliar nossa existência, para rever e renovar o sentido que lhe damos. Podemos olhar para o que estamos conquistando, além daquilo que nós perdemos; é o momento de (re)descobrir as pessoas que gostamos, as qualidades que admiramos, nossos objetivos e nosso sonhos. 
 
Não gostamos de sofrer, não gostamos de sentir saudade, não gostamos de perder aquilo que amamos. Mas é algo necessário, pois todos nós enfrentamos perdas e mortes em algum momento de nossas vidas. Podemos nos permitir maior sensibilidade ao nosso sofrimento e ao alheio porque essas coisas acontecem em todos os contextos. E podemos aprender a compartilhar isso, sem excluir e sem negar a dor. É triste sentir a falta, mas alivia sabermos que preservamos em nós muita coisa valiosa adquirida por meio das nossas relações. Podemos e devemos ensinar esse processo às crianças, em casa ou nas escolas, nas comunidades, nas empresas. 
 
Nunca vamos esquecer a pessoa que amamos e perdemos. Ela pode ser substituída em suas tarefas, mas não em nosso afeto; vamos guardá-la conosco e preservar o carinho. Mas leva tempo. 
 
Lembramos com saudade e angústia no início e devagar passamos a lembrar com mais carinho do que dor. A dor da perda é o preço pelo prazer de amar, de gostar, de dividir a vida com outras pessoas. O luto é o processo de construção de uma nova etapa de vida, que pode ser positiva se houver um enfrentamento saudável do sofrimento, pois se traduz em crescimento e enriquecimento pessoal. 
 
A morte nos reúne em torno dela e nos iguala nos sentimentos de perplexidade, dor, tristeza, raiva, confusão. O luto é a resposta natural e esperada após uma perda que exige um processo de reorganização de longo prazo. A morte de uma pessoa pública nos leva ao luto coletivo, às cerimônias públicas de despedida. São rituais que marcam a perda e ajudam a encontrar um sentido para ela permitindo o compartilhamento das emoções, que são socialmente aceitas. E aí o luto coletivo tem outro sentido, de reciclar os lutos pessoais, nem sempre permitidos. Especialistas afirmam que a morte de personalidades conhecidas e admiradas pelo grande público, torna permissível que as pessoas que não extravasaram seus próprios lutos venham a fazê-lo. É o momento de reviver as perdas pessoais, deixar fluir as emoções abafadas. “Tomamos emprestado um pouco desse luto para chorar nossas dores”, diz a coordenadora do LELU (Lab. de Estudos e Intervenção sobre o Luto), da PUC. 
 
Mesmo sem perceber, o luto privado muitas vezes é reprimido como uma espécie de defesa pessoal ou até por mudanças da sociedade atual que tornaram os rituais de despedida mais curtos e superficiais. “O prejuízo disso é semelhante ao de não poder expressar o sentimento”, diz a psicóloga Maria Júlia Kovács, coordenadora do Laboratório de Estudos sobre a Morte do Inst. De Psicologia da USP. Segundo ela, pesquisas inglesas recentes mostram que quem não demonstra as emoções acaba refletindo-as no corpo, futuramente. Em tese, recuperar um pouco do ritual pode ajudar. Ele tem função terapêutica e resgata a solidariedade, principalmente numa cidade com São Paulo, onde é cada um por si a maior parte do tempo. 
 
Viver o luto, por mais dolorido que seja, é também um momento de crescimento e lapidação humana. Vários estudiosos nos mostram que é muito comum ficarmos chocados quando perdemos alguém, que a tendência é não acreditarmos no que está acontecendo, não conseguindo aceitar o fato de que o outro está morto. Até mesmo, na fase seguinte ao choque, se você tinha uma forte ligação com a pessoa que morreu ou uma convivência muito grande, é comum pensar muito nela, vê-la nos lugares que ela costumava estar, ouvir sua voz, pensar em falar com ela, coisas assim. O hábito e o carinho fazem a gente levar mais tempo para acostumar-se com a perda. Às vezes, você até procura a pessoa falecida, como se ela ainda estivesse viva. E como a saudade é grande, todos esses sentimentos vão se misturando, se embolando, e leva um bom tempo para se acertarem dentro do seu coração, até que um dia você percebe que está mais conformado. Não é que você esquece de quem gostou muito, mas consegue lembrar-se dele com carinho, já entende melhor sua morte, já se sente mais conformado e sua vida parece mais normal. A saudade é um sentimento que sempre existirá: você pode “morrer” de saudade, mas logo estará “vivo” novamente. 
 
Tudo isso acontece porque uma grande mudança começa quando perdemos alguém importante para nós. Muitas perguntas surgem: Por que não aproveitamos mais a vida? Por que não falamos ou fizemos algo para o fulano antes de ele morrer? O que faremos agora sem aquela pessoa? Vamos conseguir continuar sem ela? Será que ela está em algum lugar? Por que morreu? São muitas as questões e às vezes achamos que devemos, nesse momento, tomar decisões importantes, assumir responsabilidades. Calma, devagar. É melhor começar com pequenas decisões. 
 
E tem mais uma coisa importante: o medo. Enfrentar a morte ou a perda de alguém querido torna-nos frágeis, impotentes e isso dá medo. Aí o que fazemos? Tentamos escondê-lo bem, para não mostrar nossa fragilidade ou para tentarmos evitar sentir mais medo. É uma forma de assumir o controle da situação, buscando sentirmo-nos forte outra vez. Mas, quanto mais a gente tenta controlar esses medos, mais eles aparecem: medo da violência, medo de escuro, medo do fracasso, medo de doenças, etc. Por isso, vale a pena refletir um pouco sobre quais medos nos acompanham no momento. Pode ser medo da própria morte ou medo do desconhecido ou medo de perder outra pessoa, entre outros. Quem ainda não se perguntou de onde veio e para onde vai? Saber de onde viemos, o que acontece quando morremos, qual o sentido da vida, é o que chamamos de “questões existenciais”. Uma questão existencial é uma questão de vida, algo que está presente em todo ser, pelo menos em algum momento da vida. Falar sobre a morte e o que acontece depois dela desperta uma grande curiosidade, mas também provoca desconforto. É difícil, dá um medo. O temor da morte decorre, portanto, da noção insuficiente da vida futura. 
 
A medida que o homem compreende melhor a vida futura, o temor da morte diminui. Uma vez esclarecida a sua missão terrena, ele aguarda o fim com calma, resignado e serenamente. A certeza de reencontrar seus familiares e amigos depois da morte, de reatar relações que tivera na Terra, dá-lhe coragem para suportar a partida de um ente querido. A Doutrina Espírita transforma completamente a perspectiva do futuro. A vida futura deixa de ser uma hipótese para ser realidade. Eis aí porque os espíritas encaram a morte tranqüilamente e se revestem de coragem e serenidade nos seus últimos momentos na Terra. 
 
Um breve comentário: Sou Rosa Maria Carleto Tosello, 55 anos, espírita, comecei desde jovem um trabalho como voluntária no CVV Samaritanos, atendendo pessoas que queriam se suicidar e descobri que, no meio de tantas perdas que já experimentavam, a morte estava presente. Hoje, sou voluntária na AACC – Associação de Apoio à Criança com Câncer que auxilia crianças e adolescentes que lutam para viver. Nesse processo de morte, vida, perdas e luto, eu fui tomando mais contato com a dor do outro e me esforçando para melhor entendê-lo. 
 
Assim, há 8 meses eu também vivenciei a minha grande perda (meu marido). Acometido por um câncer no cérebro, sua luta foi grande, mas sempre com resignação e aceitação até o final. Devo confessar a vocês que não foi fácil quando eu recebi o diagnóstico e pensei: “Agora eu não sou mais só voluntária, serei também cuidadora e perdedora”, bendita Doutrina que nos faz pensar na vida além da vida e nos fornece ensinamentos comprovados da imortalidade da alma. 
 
Mas como nada é por acaso, nesta mesma época eu fazia um curso na associação sobre “Como acompanhar a separação e o desapego do outro”. Aprendi a não viver o luto antecipado. Mesmo sabendo que o desencarne dele não demoraria muito, elaboramos melhor nosso tempo. Foi um exercício de enfrentamento e preparação para a morte, vivenciado por nós dois. 
 
Não tivemos medo do sofrimento, porque muitas vezes nós expulsamos a morte da nossa intimidade, o que me permitiu proporcionar ao meu marido toda a ternura e solidariedade nos momentos finais. Eu não podia negar a dor dele, apenas compartilhava. 
 
Aprendi a lidar com as tristezas profundas. Quando enfrentamos o sofrimento, a capacidade de tolerância e resistência aumenta as nossas perspectivas sobre a vida. Sem medo de enfrentar a dor e as perdas, tivemos um grande conforto espiritual: resgatamos a humanização e a dignidade perante a morte. Pela reconciliação com ela, tivemos a oportunidade de pedir perdão um ao outro, de fazer nossas despedidas, de repassar nossas experiências e vivências de 23 anos vividos juntos nesta vida. 
 
E para finalizar, eu gostaria de partilhar com vocês uma nova experiência que vivo hoje, numa Casa Espírita. O Centro Espírita Obreiros do Senhor de Rudge Ramos – SBC, iniciou neste ano, uma atividade muito interessante: trata-se de um Grupo de Suporte ao Luto chamado Diálogo Fraterno cujo objetivo é orientar e amparar as pessoas que perderam seus entes queridos e que chegam à Casa Espírita em busca de esclarecimento e socorro espiritual. 
 
Através de palestras evangélicas, o Diálogo Fraterno procura consolar, despertar e conscientizar os participantes. Após a palestra, o grupo se reúne e cada participante tem a oportunidade de desabafar e ouvir o desabafo do outro, relembrar as perdas, recuperar as lembranças da vida e morte do ente querido e expressar seus sentimentos, reorganizando-os internamente. 
 
Portanto, agradeço a Deus, ao Romeu (meu marido) e a toda as pessoas cujo sofrimento pelas perdas que tiveram, deram-lhe a experiência e os conhecimentos que me possibilitaram criar novos caminhos para aqueles que ainda se vêem sufocados por um luto, cuja razão não compreendem e por isso não são capazes de crescer por meio desse sofrimento. 

 


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