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Anjos da guarda para enlutados

 

As psicólogas natalenses Millena Câmara e Christine Campos são especialistas em psicoterapia para pessoas enlutadas e fizeram parte da equipe que trabalhou junto aos familiares das vítimas do maior acidente aéreo da história do Brasil, que ocorreu durante a aterrissagem de um airbus, na cidade de São Paulo, no dia 17 de julho deste ano. As especialistas passaram uma semana na cidade de Porto Alegre, no Rio Grande do Sul, prestando assistência psicológica à diversas pessoas ligadas emocionalmente às vítimas. Na semana em que estiveram em Porto Alegre, outros sete psicólogos faziam parte do grupo, realizando atendimentos com aqueles que chegavam ao aeroporto ou, por solicitação, nas residências de algumas famílias. ‘‘Foi montada uma equipe inicial e o grupo é modificado a cada semana. Eu fui quando o primeiro grupo saiu, na segunda semana após o acidente’’, explicou Christine. Millena acredita que esse trabalho foi essencial para quem convivia com as vítimas, porque em uma situação de tragédia, a dificuldade de lidar com a dor da perda de alguém querido se mistura aos sentimentos de solidão, injustiça, revolta e raiva. Então, é muito importante encontrar alguém disposto a parar para ouvir, apoiar e orientar, principalmente nos primeiros momentos, quando ainda estão procurando o corpo, os pertences, organizando o enterro. ‘‘A gente chega diante de uma situação de tragédia e encontra as pessoas fragilizadas, com demandas muito variadas. O atendimento aos familiares das vítimas do acidente do avião foi uma situação emergencial e o que a gente podia oferecer era apoio, para ajudá-los a organizar um pouco a vida deles no meio daquele caos todos. Eu me senti muito privilegiada por ter sido chamada, além de ser um reconhecimento do trabalho desenvolvido aqui no Nordeste. Tenho certeza de que voltei uma pessoa diferente’’, revelou Millena. 
 
Comportamento muda, é muito normal De acordo com as especialistas, é natural haver uma modificação no comportamento diante de um evento estressante, mas com o tempo, a dor passa a ser sentida com menor intensidade e o apoio psicológico auxilia na aceitação da existência dessa dor, que é o primeiro passo para o enlutado elaborar e passar a conviver com a perda. A orientação é importante, principalmente, quando o próprio enlutado percebe que a mudança passou a afetar seu trabalho e relações interpessoais. ‘‘As pessoas ficam muito ansiosas e se queixam por estar há um ou dois meses com alterações significativas. Chegam dizendo que não estão normais, querendo amenizar o que estão sentindo, às vezes até um remédio para tirá-las daquela dor. Mas elas precisam ter a clareza de que isso é um momento, um processo, no qual a tendência é ir trabalhando e avançar’’, esclareceu Christine. 
 
Para as psicólogas, a maior ajuda que os familiares e amigos podem oferecer é respeitar o luto do outro, sem incentivar ou condenar comportamentos, dando liberdade para que ele passe pelo processo da forma mais confortável para si. As especialistas lembraram que não existe uma receita pronta, capaz de garantir rapidez nesse processo. ‘‘A gente precisa estar junto, se disponibilizar, respeitar a dor e a necessidade de expressão do outro. Cada um sabe o próprio limite e a pessoa só pode ser ajudada se estiver disposta a aceitar essa ajuda’’, esclareceu Millena. 
 
Luto provoca reações diversas O processo de luto provoca reações que variam por diversos motivos, como personalidade, suporte social e tipo de ajuda que o enlutado recebe. De maneira geral, é comum provocar choro, agressividade, depressão, dificuldade de concentração, alterações nos padrões alimentar e de sono, além da queixa de não ver mais graça em nada. Essas reações podem ser confundidas com depressão e ocorrem porque a visão de mundo se modifica drasticamente. 
 
Segundo Christine, nesses momentos de sofrimento, a religião também pode ser uma forma de auxílio na busca de respostas, que variam de acordo com a crença de cada um. A especialista disse que ‘‘a espiritualidade vem para o que a razão não domina’’ e, dessa forma, um maior contato com o lado espiritual pode dar um suporte importante para o significado que será atribuído à perda, ajudando a criar novas estratégias para seguir em frente.
 
Christine finalizou falando de uma forma poética sobre o que sente com relação ao seu trabalho junto aos pacientes. Para ela, é como ver uma borboleta saindo do casulo. ‘‘A gente pega aquela ‘borboletinha’ com tanta dificuldade e acompanha, dando suporte para que ela possa ‘voar’ sozinha’’, comparou. 
 
Um mecanismo de defesa
 
Apesar de ser mais usual encontrar pessoas que estão sofrendo devido a perdas recentes, algumas circunstâncias podem provocar uma mudança nesse padrão. Christine Campos explicou que, como forma de defesa, algumas pessoas ‘‘adiam’’ o processo. A particularidade desse comportamento é que, quando a pessoa encara o luto, ele vem com uma intensidade muito maior e acompanhado das chamadas reações de luto complicado. ‘‘Eu já atendi uma mulher que perdeu o marido e, como precisava cuidar sozinha de três filhos pequenos, decidiu apoiá-los e não chorou o quanto gostaria. Quando ela chegou para a terapia, já fazia 10 anos que o marido tinha morrido, mas ela sentia tudo tão intensamente que alguém que não conhecesse a história poderia pensar que ela tinha ficado viúva há dois dias’’, exemplificou Christine. 
 
Por outro lado, o luto pode ser antecipado, ocorrendo quando a morte ainda não chegou, mas as pessoas já estão enlutadas. Na maioria das vezes, esse sentimento surge nos familiares, amigos e nas próprias pessoas que sofrem com uma doença grave. Nessas situações, existe a possibilidade de resolver questões importantes, como forma de despedida e parece haver uma melhor aceitação do que em incidentes onde a perda ocorre de uma forma repentina. Por exemplo, se um jovem acredita que vai deixar a esposa com filhos ainda pequenos, o casal pode tomar decisões importantes em conjunto, como a casa onde ela vai morar e se os filhos vão continuar na mesma escola ou não. ‘‘Esse processo é muito importante, tanto para quem parte, quanto para quem fica’’, destacou Christine. É frequente, também, surgir o sentimento de culpa pela perda e a idéia de que o enlutado tomou alguma atitude errada, o que pode vir a provocar uma auto punição. Outras vezes, a tendência pode ser a de punir a equipe que cuidou daquela pessoa tão querida, ou mesmo a Deus, passando a dizer que se Deus existisse não teria deixado aquilo acontecer. 
 
Entretanto, a culpa prolonga a dor. ‘‘Isso é porque temos um mundo presumido e, quando tudo funciona, tendemos a achar que a vida é ótima e não somos vulneráveis. Então, no momento em que uma perda ocorre, vemos que aquilo também pode nos afetar’’, completou Christine. 
 
Iniciativa é pioneira no RN
 
A psicóloga Millena Câmara participa de uma iniciativa pioneira no Brasil, que consiste em um trabalho de apoio psicológico aos familiares que utilizam o serviço de um grupo funerário. O serviço é oferecido gratuitamente para os clientes do grupo, que solicitam o acompanhamento. É realizado em grupo, por meio de palestras e discussões de temas relacionados à morte, em 12 encontros por ano. 
 
Desde o ano passado, o acompanhamento foi extendido aos funcionários, com um trabalho de treinamento para lidar com morte e luto, onde é vista a questão técnica e a emocional, do lidar constantemente com o processo.
 
Educação para a morte
 
O Projeto Educação Para a Morte é desenvolvido pelas duas psicólogas em escolas, abrindo espaço para discutir temas relacionados à morte, como as dificuldades vivenciadas ao lidar com a perda, além de preparar os professores para tratar do assunto em sala de aula. ‘‘A responsabilidade da escola na formação do cidadão é muito grande’’, lembrou Millena. 
 
As psicólogas trabalham no sentido de diminuir a dificuldade cultural e familiar de lidar com a morte, que faz com que as pessoas reprimam os sentimentos e não aceitem a perda. Millena Câmara acredita que discutir o tema é um passo importantíssimo. ‘‘O sexo era um tabu enorme. No tempo dos nossos pais e avós, ninguém falava sobre sexo. Eu acredito que se a semente for plantada, futuramente a morte poderá ser discutida de uma forma muito mais saudável, ajudando a lidar com o luto, quando ele chegar’’, comparou Millena. 
 
Dentro do projeto, elas trabalham junto aos professores e aos pais, para que sejam abertos canais de diálogo com as crianças e adolescentes, fazendo com que esses indivíduos possam ser adultos saudáveis, capazes de elaborar o luto e vivenciar a perda da melhor forma possível. ‘‘Afinal, educar para a morte é também educar para a vida’’, disse Christine. 
 
Crianças têm que ser orientadas Na nossa cultura, a morte não é um assunto bem aceito e existe uma enorme dificuldade em falar sobre isso, principalmente com as crianças, porque os adultos acreditam ser um assunto muito sério e dão a impressão de esquecer que elas também sentem o luto. Além disso, os adultos têm muita dificuldade em ver uma criança sofrendo. ‘‘A primeira coisa que a gente faz é pegar no colo, dar algo que ela quer, qualquer coisa para que a criança pare de chorar, só que isso reprime muito a expressão dela. Temos que lembrar que criança é um ser humano e sofre também’’, completou Millena Para que os pequenos possam encarar a morte como um evento natural é preciso que os pais sejam honestos ao falar sobre a perda de alguém querido. Também nessa hora, os questionamentos devem ser respondidos de forma verdadeira, delicada e simples, em uma linguagem compatível com a idade da criança. Se houver alguma dificuldade de diálogo, os adultos podem utilizar livros infantis ou contar histórias vividas pelos pais, ou outra pessoa próxima, do tempo em que também eram crianças, como forma de fazer o filho concluir que, se aquele adulto superou um momento difícil, ele também será capaz. De acordo com as psicólogas, é imprescindível a criança entender que não será mais possível conviver com aquela pessoa. As especialistas sugeriram que durante a conversa, a palavra morte pode ser utilizada naturalmente, e para que a criança não fique confusa, os pais não devem dizer que aquela pessoa ‘‘virou uma estrelinha’’, ‘‘virou um anjinho’’ ou ‘‘fez uma viagem’’. ‘‘Os adultos devem entender que não existem respostas prontas e que precisam ser honestos, não tendo medo de errar e ir desenvolvendo as respostas à medida em que as crianças vão perguntando’’, explicou Christine. 
 
Dificuldades para voltar a rotina
 
Uma queixa frequente de quem está passando por um processo de luto é o fato de haver sempre alguém por perto e disposto a ajudar, durante a primeira semana após a perda. Nesse período, o pensamento dos amigos é que a pessoa precisa deles e não pode ser deixada sozinha, já que está muito triste. O problema é que aqueles amigos costumam ‘‘sumir’’ logo após a missa de sétimo dia. Dessa forma, os enlutados começam a se sentir sozinhos, diferentes, como se não tivessem espaço, nem com quem compartilhar a sua dor, uma vez que a rotina das outras pessoas foi retomada. 
 
Outra dificuldade que acompanha as pessoas em luto é o fato de que, na tentativa de ajudar, alguns amigos podem fazer comentários impróprios, por não conseguir se colocar da maneira adequada. Dessa forma, perguntas como ‘‘já faz 5 meses e você ainda está assim?’’ podem fazer com que o enlutado sinta como se vivesse sob uma cobrança constante da sociedade, não sabendo a melhor forma de se posicionar frente à situações que, em outros momentos, seriam corriqueiras. 

 


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