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Somos preparados para enterrar nossos pais, não nossos filhos

 

Mônica Dirane Reis, 35 anos, dona de casa, perdeu o filho Pedro Paulo, 4, de câncer, em 1997
"Um dia Pedro Paulo caiu e cortou o lábio. No hospital, o médico notou um caroço em seu abdômen: era câncer. Eu não podia entender. Pedro nunca se queixara de dor.
Ele começou a fazer quimioterapia, mas outros tumores foram aparecendo, tudo em 11 meses. Nossa casa vivia cheia de gente de todas as religiões orando por ele. Antes de deitar ele dizia: - Jesus, me cura!.
O tempo todo achei que meu filho ia sobreviver. Um dia antes a médica me disse que não tinha mais jeito. Perto de 23h, sua 
respiração estava ruim. Fiquei sozinha com ele no quarto. Estava inconsciente, mas eu tinha certeza de que podia me ouvir. Coloquei a mão sobre seu coração e disse: 'Meu filho, vá em paz e prometo que a mamãe vai ficar bem'. Depois de 15 minutos ele faleceu.
Então desmoronei. Durante a doença era difícil eu chorar. Como desejei estar em seu lugar! Tinha o ímpeto de sair correndo ao imaginar meu filho na cama sem respirar. Por que uma criança sofrer dessa maneira?
Na primeira semana fiquei quietinha em casa. Depois da missa de 7º dia, me tranquei no quarto dele e dividi suas roupinhas e brinquedos em sacolas. No dia seguinte, meu marido e eu distribuímos tudo na periferia. Guardei só algumas pecinhas que ele mais usava e uns brinquedos, como um carrinho com controle remoto que ele adorava.
Enquanto dobrava suas roupinhas, percebi que nada me traria ele de volta. Olhei para minha filha, Karina, de 7 anos, e vi que ela estava precisando de mim. Eu a tinha deixado de lado para me dedicar ao Pedro. 
Mesmo assim, parei no tempo por uns dois meses. Levava a Karina na escola e o resto do tempo ficava olhando para o nada, analisando o que tinha acontecido. Recebia muita visita, mas para mim era indiferente se a casa estava cheia ou vazia. Eu estava vazia.
Até que comecei a me envolver com a religião espírita. Recebi uma mensagem psicografada do Pedro. Ele disse que estava bem e logo me mandaria uma mensagem maior. Já recebi outras... Isso não me ajuda 100%, mas me consola.
Três meses depois, um apartamento que havíamos comprado ficou pronto e comecei a me envolver com a mudança. Me candidatei a síndica, já para me ocupar, porque até hoje é 24 horas o Pedro Paulo na minha cabeça. Depois de tudo arrumado, voltei à depressão.
Fui a uma psicóloga para levar a Karina e entrei no tratamento. Eu não tinha mais auto-estima, não saía, não me vestia direito. Fiquei seis meses e voltei a gostar de mim, mas a vaidade acabou. Não uso mais brinco, não passo batom. Não superei essa perda. Não tenho coragem de passar na rua do hospital. Desvio, porque vai me trazer recordações, vou ver a lanchonete onde comprava o suco que o Pedrinho gostava.
O que me faz ir adiante é minha filha e a certeza de que amei e fui amada pelo Pedrinho. Tem horas em que a dor ainda vem com muita intensidade, principalmente ao entardecer. Estou assistindo TV, de repente as imagens dele vão me pressionando, é uma dor forte e estridente.
Tenho fotos do Pedrinho pela casa toda. Algumas pessoas até criticam, mas meu filho foi um pedaço de mim, existiu. Dois dias antes de falecer, no hospital, ele me ajudou a montar um álbum dele. Tem fotos desde que eu estava grávida, até sua última foto. Quer dizer, meio álbum, só...
Quando vejo uma família com um casal de filhos, me vem o 'por quê?'. Em festa de criança, vou constrangida, me culpando de o Pedro não estar ali. Penso em ter outro filho, mas seu espaço nunca será preenchido.
Somos preparados para enterrar nossos pais, não nossos filhos. Mas minha história é igual a de tantas outras mães... Com a perda compreendi que não somos nada. Eu era rancorosa, emburrava por qualquer coisa. A gente aprende exatamente o que arruina a vida, o que é problema sério. A morte uniu meu marido e eu. Já tive várias crises no casamento, mas hoje qualquer briguinha é pequena diante do que passamos.
Levo uma vida normal. Tomo conta de umas creches com mães que passaram pela mesma experiência. A gente visita o hospital do câncer, converso com as mães, vejo um espelho do que passei, e isso me alivia.
Nada repara a perda de um filho. Nada. Dou minha vida pela minha filha, mas hoje, se eu cair doente numa cama, vou ficar dividida. Se fico, por causa da Karina, ou se vou me encontrar com Pedro Paulo."

 


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