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É estranho viajar e não ter que avisar meus pais, sinto falta até das brigas...

 

Os irmãos Katherine Wrede Ferreira, 28 anos, professora primária, e Robert Polenghi Wrede, 34, técnico em eletrônica, perderam a mãe, Gabi, em 1997, e um ano depois o pai, Hans, ambos de câncer
 
Katherine - No último Natal fiz uma mesa enorme. Quando olhei só tinha eu, meu marido, minha filha e meu irmão, e sobravam cadeiras. A gente sabe que vai perder pai e mãe um dia, mas eles eram jovens (ela tinha 52 e ele 54) e eu sempre tive pavor da morte.
 
Robert - Até as últimas semanas, eu achava que ela ia sobreviver. Parecia anestesiado. Depois veio um alívio estranho. Fiquei triste e feliz, por ela parar de sofrer.
 
Katherine - Larguei casa, trabalho e marido para cuidar dela. Meu pai negou a doença, nem ia ao hospital. Uma madrugada nosso outro irmão me ligou e disse: 'acabou'. No hospital, desentubaram ela na nossa frente. Eu só pensava: 'não é a minha mãe'. Calhou de eu ter que reconhecer o corpo. Eu vi a morte, e essa visão seca a vida. Todo mundo me dizia que os primeiros três meses eram os piores. Comecei a contar no calendário, mas fui piorando... Veio a solidão. 
 
Robert - Durante uns dois meses eu tive sentimento de culpa. Acho que não fui um bom filho: era malcriado, chato, frio. Ficou a impressão de que eu podia ter feito mais.
 
Katherine - No dia seguinte, separei as coisas dela para doar. Porque na última semana, ele ficava cheirando as roupas dela.
 
Robert - Não entendo por que todo mundo quer se livrar rápido das coisas da pessoa que faleceu. É preciso dar um tempo... 
 
Katherine - Guardei apenas um vestido solto, colorido, que ela punha quando chegava do serviço. Está num saquinho, nem mexi. Em seguida, comecei a cuidar do meu pai e dos meus irmãos. Não tínhamos nos acostumado com a morte da minha mãe quando veio a doença do meu pai. O câncer já estava em metástase. Eu tinha me apegado a ele. Era o 'vovô' da minha filha. A gente ia junto ao cemitério, eu cuidava do túmulo da minha mãe, plantava as plantas que ela gostava. Depois que ele morreu, não voltei mais lá.
 
Robert - Com meu pai foi mais duro. Eu olhava para ele, sabia que ele ia mesmo, e não podia deixar transparecer.
 
Katherine - Optamos por não deixá-lo saber o que tinha. Depois que ele morreu, 40% da minha felicidade se foi. Eu era 'criança' até morrer meu pai e minha mãe. Tinha o cabelo enorme, escorrido, um dia olhei no espelho, fui ao cabeleireiro e cortei curto, como se não pudesse mais ter aquele visual de 'filha'. Perder os pais é envelhecer.
 
Robert - Fiquei refletindo sobre para onde a pessoa vai. Comecei a estudar espiritismo. Acredito em Deus, procuro colocar em mente que a morte é algo natural, como uma função biológica. Mas apenas o físico morre. 
 
Katherine - Não cheguei nessa busca. Durante a doença eu até pensava: 'alguém lá em cima vai me ajudar', mas eu rezava, rezava, e nada melhorava. Vejo tanta gente ruim tendo mil oportunidades, minha mãe lutou tanto para viver, e não teve chance.
 
Robert - Se eu achasse que a morte é o fim, ficaria maluco. Não é possível que a gente seja a melhor coisa que Deus criou.
 
Katherine - Às vezes ainda choro como se tivesse acontecido ontem. Não consigo ir à casa deles, parece uma casa de fantasmas. Mas no Ano Novo, fui para a casa de praia, e me senti bem. É um lugar que meus pais adoravam, e tudo o que eles gostavam de fazer lá, cortar grama, plantar, eu faço. Meu pai ouvia muita música clássica, e me irritava. Hoje ouço a tarde inteira, me dá paz. lembrança está na mente.
 
Katherine - Domingo eu acordava, ia comer o macarrãozinho da mamãe. Hoje passo sozinha, meu marido trabalha. Não tenho mais com quem dividir minhas ale-grias, não posso mais dizer: 'Olha, mãe, o que me aconteceu'. É estranho viajar e não avisar meus pais. Sinto falta até das brigas ¼
 
Robert - A gente tem uma visão distorcida da vida. Tudo em volta é tão frágil e não percebemos. Vivemos trabalhando para pagar contas, desperdiçando tempo com coisas bobas. Já me perdoei por não ter sido um filho melhor. Não tenho culpa de não saber algo que só aprendi com essa experiência.
 
Katherine - Ainda não superei o luto e pior: fiquei com medo de morrer, tenho tendência a ter câncer. Pretendo fazer terapia. Estou tentando colocar o nome da minha mãe na escola em que ela lecionou. O que me faz viver hoje é minha filha e meu trabalho. Cuido de 52 crianças de 4 anos, elas me fazem sentir viva."

 


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