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O silêncio que vai além das palavras

 

Há um momento na vida do paciente em que a dor
cessa, em que a mente entra num estado de torpor, em 
que a necessidade de alimentação torna-se mínima, em 
que a consciência do meio ambiente quase que 
desaparece na escuridão. É o período em que os
parentes andam para lá e para cá nos corredores dos
hospitais, atormentados pela expectativa, sem saber se
podem sair para cuidar da vida ou se devem ficar por ali
esperando o instante da morte. É o momento em que é 
tarde demais para palavras, em que os parentes gritam 
mais alto por socorro, com ou sem palavras. É tarde
demais para intervenções médicas (que são duras
demais quando acontecem, apesar da boa intenção),
mas é cedo demais para uma separação final do
agonizante. É o momento mais difícil para um parente 
próximo, pois ele também deseja que tudo passe, que 
tudo termine; ou agarra-se desesperadamente a alguma 
coisa que está prestes a perder para sempre. É o
momento da terapia do silêncio para com o paciente, e
de disponibilidade para com os parentes.
O médico, a enfermeira, a assistente social ou o 
capelão podem ser de grande valia nestes momentos
finais, se souberem entender os conflitos da família nesta
hora e ajudar a escolher uma pessoa mais tranqüila para
ficar ao lado do agonizante, pessoa que se torna de fato
o terapeuta do paciente. Os que se sentem abatidos
demais podem receber assistência sendo aliviados de
sua culpa ou assegurados de que alguém ficará com o
moribundo até o desenlace. Podem, então, voltar para
casa sabendo que o paciente não morrerá sozinho, sem
se sentirem culpados ou envergonhados por se terem 
esquivado deste momento, para muitos tão difícil de
enfrentar.
Aqueles que tiverem a força e o amor para ficar ao 
lado de um paciente moribundo, com o silêncio que vai
além das palavras, saberão que tal momento não é
assustador nem doloroso, mas um cessar em paz do
funcionamento do corpo. Observar a morte em paz de
um ser humano faz-nos lembrar uma estrela cadente. É
uma entre milhões de luzes do céu imenso, que cintila
ainda por um breve momento para desaparecer para 
sempre na noite sem fim. Ser terapeuta de um paciente
que agoniza é nos conscientizar da singularidade de
cada indivíduo neste oceano imenso da humanidade. É
uma tomada de consciência de nossa finitude, de nosso
limitado período de vida. Poucos dentre nós vivem além 
dos setenta anos; ainda assim, neste curto espaço de
tempo, muitos dentre nós criam e vivem uma biografia
única, e nós mesmos tecemos a trama da história 
humana.

 


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